Há pessoas que vivem apenas das ideias das suas cabeças. Atravessam o mundo por elas. Resistem a todos os nãos. Mais cedo ou mais tarde brilham. Saber sofrer é saber vencer.

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20
Set 10

 

 

Valdeon

 

    

 

 

Tudo começou á muito, muito tempo atrás. Bem, não foi assim á tanto tempo, foi apenas á alguns anos quando um dia daqueles mais enfadonhos passeava pela internet e vi algumas fotos dos Picos da Europa. Um lugar que passaria a fazer parte do meu imaginário e consequentemente um objectivo a atingir.  
No inicio de Agosto tomei conhecimento que o Clube de Praticantes de Montanhismo Um par de botas se iria mais uma vez aventurar neste destino por mim á tanto tempo desejado. Para eles seria mais uma aventura, para mim seria a realização de um sonho. Apesar de todos os entraves parecerem ultrapassados ainda estava com algumas indecisões mas já sentia o sangue a ferver com a excitação. Mas, não havia muito a hesitar, a oportunidade estava ali e decidi não a deixar escapar.   
Em vésperas do primeiro dia de Setembro fazem-se os últimos preparativos e põe-se o relógio a despertar para as 4:50 Horas para aquele que seria o primeiro dia de aventura. Tal era a excitação que acordei ás 4:43 e saltei da cama surpreendendo o relógio antes de ter tempo de soltar o seu som estridente.
  
Pelas 5:30 Horas, ainda a cidade dormia, já o grupo de cinco aventureiros se encontrava reunido no local do costume, viam-se algumas poucas almas de ambulantes pela rua, ainda sonolentas mas que pelo passo que levavam tinham destino marcado. Que pensariam elas, que acabaram de ser arrancadas da cama se soubessem o propósito de ali estarmos. Que seriamos doidos, doentes ou outras coisas piores, mas de uma coisa tenho a certeza, estávamos mais vivos que elas.
  
 Bagagem carregada estava na hora de partir, pois a jornada é longa e o relógio não espera. Estrada fora, uns tentando recuperar das poucas horas dormidas, outros tertúliando sobre assuntos diversos. Depois de muitos quilómetros e algumas paragens para café chegamos a Riaño, uma pequena vila encostada a uma albufeira rodeada de montanhas que nos ofereciam um pequeno vislumbre das paisagens que se seguiriam. Após uma pequena paragem para desentorpecer as pernas colocamo-nos a caminho para a última etapa da viagem que nos levaria a Valdeon, uma vila pitoresca aninhada entre gigantescas montanhas e que ficava a caminho de Cordiñanes, local onde deixaríamos a viatura e após uma refeição ligeira e reforçarmos as reservas de líquidos. Este seria o ponto de partida, os nossos olhos percorriam em vão a encosta da serra procurando o trilho que deveríamos seguir. Se não fossem as marcações do trilho e a experiencia dos companheiros de aventura acho que dificilmente sairíamos do local de partida.
  
Após caminharmos algumas dezenas de metros chegamos ao sopé da montanha onde existe um pequeno trilho, que não tem mais de 80 cm de largura, em alguns pontos talvez menos, e que nos vai conduzindo em torno da serra, sempre a subir. A dada altura olhamos para cima e deparamo-nos com varias dezenas de metros de rocha escarpada, olhamos para baixo e temos a mesma visão. Aqui não á tempo para parar nem lugar para ter medo. Limitamo-nos a caminhar e a subir até chegarmos ao Canal de Asotín. Aqui sentimos mais segurança, a paisagem muda, agora caminhamos por um vale arborizado que nos leva a um prado verdejante onde algumas cabras vão pastando indiferentes a uem por ali passa. Mas as facilidades são ilusórias neste terreno, se até aqui parecia difícil para a frente acabaria por ser pior. Para chegarmos ao nosso destino ainda tínhamos muito que subir. Quando parecia que seria impossível vencer a montanha começa a chuviscar, o que nos iria obrigar a reforçar os cuidados pois as rochas começaram a ficar escorregadias. Com passos curtos mas determinados íamos avançando no terreno até que ouvi um estrondo que pela sua violência seria sinónimo de perigo. Num gesto quase mecânico voltei a cabeça para traz, com tanta velocidade e amplitude que o meu pescoço permitiu e vi um bando de pássaros esvoaçar seguindo-se uma derrocada de pedras. Inconscientemente dei alguns passos apressados para me desviar mas naquele momento já estava fora de perigo. Os que estavam mais adiantados aguardaram pelos que ficaram para traz para nos certificarmos que estávamos todos bem e nos agruparmos pois segundo o chefe mais á frente “iríamos ter que usar as mãos”. Esta expressão não me suou bem, mas também não quis saber o que significava. De qualquer forma também não ficaria muito tempo na ignorância pois não tardou estava diante de uma parede que teríamos que escalar. Escalar? Mais uma novidade para mim, acho que nunca fui bom nem a trepar arvores para roubar fruta nos meus tempos de escola. Sem pensar muito deitei mãos às rochas tentando encontrar pontos de fixação seguros para a escalar. Não consegui evitar alguns passos falsos ou tropeções dos bastões que habitualmente servem para nos auxiliar, mas nestas condições só atrapalham. Terminada a parede já se vislumbra o telhado e uma ponta do alpendre do refúgio Collado Jermoso, onde iríamos pernoitar. Esta visão deu algumas forças que seriam bem necessárias para a última subida, talvez a mais violenta do dia pois para além do declive só tinha cascalho o que fazia que a cada passo que déssemos para a frente deslizássemos no sentido inverso. Se não fosse tão duro e já termos feito cerca de 1100 metros de desnível até teria sido divertido. 
Refugio Jermoso
 
Chegados ao refúgio deparamo-nos com uma pequena casa construída em 1942 a uma altitude de 2065 metros, voltada para um precipício e com uma vista magnífica. A sua porta rude em ferro dá acesso a um pequeno átrio onde podemos descalçar as botas e darmos algum descanso aos pés dentro de socas disponibilizadas. Deste pequeno átrio temos acesso através de umas escadas quase verticais ao sótão onde existem colchões pelo chão onde viríamos a dormir. A sala de jantar tinha a mesma arquitectura da casa, em jeito de taberna do Minho com chão em cimento, bancos de madeira e mesa com toalha em plástico com quadrados vermelhos e brancos. Pelas paredes estão espalhados alguns quadros com fotos tiradas na zona ou de locais que mais tarde espero vir a descobrir. Algumas pequenas janelas deixam entrar alguns raios de luz e deixam-nos jantar acompanhados pela beleza da serra. A casa de banho, bem, a casa de banho não existe pelo que cada um tem os cuidados de higiene que pode. Uns toalhetes para passar pelo corpo e uma lavagem aos dentes terão que servir. Apesar das condições que este refúgio nos oferece parecerem ser escacas, nunca nos faltou nada, aliás acho que se mudarem alguma coisa estragam este local.
 

 

 A hora de jantar é uma festa, ladeados pelos companheiros ou por desconhecidos que ali estão com o mesmo propósito, vamo-nos fartando para tentar recuperar as energias que perdemos durante o dia. A ementa passa sempre por uma sopa e um prato de massa. Massa, massa todos os dias, preparada das mais variadas formas, mas que dadas as condições parece um autêntico repasto dos deuses.

 

Já deitados na cama, ou melhor nos colchões íamo-nos acomodando tentando encontrara melhor posição para o merecido repouso, mas eu no meu canto permanecia vigilante, ouvindo a chuva que caia, agora com mais intensidade sobre as telhas que nos estavam tão próximas. A minha respiração estava mais acelerada e profunda que o habitual, era o meu corpo a tentar adaptar-se á altitude a que não estava habituado. Sempre que fechava os olhos era assolado por imagens do percurso que fizera durante o dia, só que agora estava aterrorizado por imagens de pedras a cair das escarpas e de quedas em ravinas e por todos os perigos a que estive sujeito mas que no terreno me tentava abstrair concentrando-me apenas no nosso propósito. E uma ideia igualmente arrepiante, a de que o dia seguinte as dificuldades seriam maiores. 

 

 

 

Continua...

 

publicado por Paulo da Silva às 21:06

EXCELENTE texto, parabéns!! :)
medronho a 21 de Setembro de 2010 às 09:59

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